Vila de Rondônia vai desaparecer sob represa
de hidrelétrica
Inundada pela represa de Jirau, que está em construção no rio Madeira, a vila de
Mutum-Paraná vai desaparecer. Por isso, 330 famílias terão de se mudar para uma
cidade de casas pré-fabricadas.
A vila surgiu com a estrada de ferro Madeira-Mamoré, há cerca de 100 anos. A
estrada foi desativada e Mutum-Paraná nunca mais acertou o pé. Passou por ciclos
de garimpo, de madeira, sem sucesso permanente.
Expectativa - Para a maioria dos moradores, a construção das usinas é a salvação
da economia local. 'A expectativa é muito grande no sentido de comércio. Porque
onde tem muita gente é melhor de trabalhar', acredita o comerciante Claudenir
Oliveira.
A mudança será completa. Até os 140 túmulos do velho cemitério serão levados
para a nova vila, a 50 quilômetros de distância. Um transtorno, mas o líder
comunitário diz que será para melhor. 'Nós vamos ter duas escolas, com condições
de dobrar o número de alunos que hoje nos temos em classe', diz Jacob Benaroiz.
Os ribeirinhos, no entanto, não estão satisfeitos. As 763 famílias que moram na
área da usina Santo Antônio vão ter que se mudar porque o lago vai invadir as
margens do rio. 'O que o pescador quer é permanecer na barranca do rio, ter
livre acesso à barranca do rio', diz o pescador Pedro Damaceno.
Muitos ribeirinhos estão inseguros, não sabem se vão poder manter o seu jeito de
viver, que é morar na barranca do rio, ao lado de seus barcos. Os reservatórios
precisam manter uma faixa, em toda a margem, chamada Área de Proteção Permanente
(APP). Os ribeirinhos, que são pescadores, acham que em suas novas casas vão
ficar longe de onde tiram o seu sustento.
'Não adianta dar uma casa com alvenaria, com eletricidade, com água encanada.
Porque eu tendo uma casa dessas não me serve de nada se eu não puder pescar',
afirma o Coordenador da ONG Madeira Vivo, Jorge Ferreira.
O pescador Rômualdo Rodrigues Sales já se mudou e não gostou. Apesar da casa
ampla e da boa infraestrutura da agrovila, ele reclama que ficou sem trabalho.
'Vamos dizer que eu pegava 50, 60 quilos por semana. Farinha, muitas vezes, até
vendia 18 sacos de farinha em dia de domingo. Hoje eu não tenho roça aqui.'
Existe área para roçado, mas, na mudança, muita gente perdeu a época certa de
plantar. A direção da usina reconhece: é difícil reproduzir aqui a vida que os
ribeirinhos tinham antes. 'Por mais que você faça em termos de melhorias,
adequações, adaptações, sempre fica aquele lado sentimental, da família, da
tradição, dos pais que ali moraram e que cultivaram toda a área', afirma o
Coordenador de Sustentabilidade da Usina Santo Antônio, Luiz Zoccal.
Tem gente que acha que se deu bem. Valter Rodrigues da Silva, que é piloto de
canoa com motor, conhecida na região como voadeira, recebeu casa e boa
indenização. 'Casa nova, as coisas tudo nova. Comprei uma voadeira, que não
tinha condições de comprar uma voadeira para mim. Então, para mim está bom.'
Tribos isoladas - Não há aldeias indígenas na área a ser inundada, mas
lideranças temem impactos em tribos isoladas. O Ministério Público Federal abriu
ação para proteger índios sem contato com o homem branco. 'Os próprios
antropólogos da casa estão fazendo um estudo para provar que a existência desses
índios para que não seja liberado o empreendimento até que se resolva essa
situação', explica a procuradora Luciana Pepe de Luca.
A Funai diz que há oito grupos indígenas isolados na região. As usinas se
comprometeram a mantê-los protegidos. As hidrelétricas têm também de levar em
conta nossos vizinhos, do outro lado da fronteira.
Os bolivianos estão de olho na construção das usinas em Rondônia. A bacia do Rio
Madeira é binacional. De um lado, por exemplo, está a cidade de Guayaramerin,
Bolívia, e do outro a cidade de Guajará-Mirim, Brasil. A fronteira é o Rio
Mamoré, que forma o Rio Madeira. Os bolivianos querem saber se o represamento do
rio terá conseqüências no território da Bolívia.
Pesquisadores bolivianos apontaram para o risco de inundações e redução da
pesca. O engenheiro Maurício Tolmasquim, que participou da decisão de construir
Jirau e Santo Antônio, diz que há desconhecimento em relação ao projeto. 'É
natural que haja desconfiança, mas não tem problema, inclusive existe hoje uma
oferta do governo brasileiro de, se houver desejo, se construir uma usina
binacional na fronteira e ajudar na construção da hidrelétrica lá na Bolívia.
Então, não tem impacto e, ao contrário, a gente quer cooperar com os
bolivianos'.
Fonte: G1
Fonte:
www.orm.com.br - Portal ORM -
20/08/2009 - 13h30m